É evidente que o debate sobre sustentabilidade na produção dos gêneros agropecuários vem se intensificando, motivado por pressões regulatórias e/ou exigências de mercado e, sobretudo, pela necessidade de mitigar as mudanças climáticas globais.
A soja e outros insumos (café, cacau, madeira, borracha, carne bovina, etc.) foram posicionados no epicentro dessas narrativas, por conta do enviesado juízo dos protecionistas e dos ambientalistas mais radicais, à exemplo da Lei de Desmatamento da União Europeia/EUDR, que enquadrou o Brasil como país fornecedor de “risco médio”, considerando diversos fatores, dentre os quais, a conversão de florestas e pastagens em terras cultiváveis, o nível de expansão de terras agrícolas, o uso de fertilizantes nitrogenados e de combustíveis fósseis.
No caso dos produtos animais, a medida da pegada de carbono costuma mirar nas emissões diretas dos alojamentos/confinamentos, transporte e processo, sendo que boa parte das emissões está vinculada à oleaginosa mencionada anteriormente. A regionalização e a precisão da metodologia de cálculo aplicada são determinantes para desmistificação e mensuração do real impacto sobre a cadeia produtiva das proteínas animais, já que o farelo de soja (estrato sólido resultante da extração do óleo) é bastante utilizado na alimentação de aves, suínos e ruminantes.
A propósito, a Embrapa conta com ferramenta (denominada Brazilian Land Use Change/BRLUC) que estima as emissões provenientes da mudança do uso da terra e que é capaz de diferenciar claramente os impactos da conversão de florestas (altos estoques de carbono) das áreas de pastagem degradada (estoques menores).
Esse robusto inventário com acurada geolocalização permitiu que outra plataforma automatizasse o cálculo das emissões, a rastreabilidade e o monitoramento ambiental, desde a produção (talhão) até o consumidor final (talher) e integrasse dados em tempo real sobre uso da terra e cadeias de valor, concluindo que dependendo do município de origem, a pegada de carbono pode variar de menos de 0,1kg até mais de 18kg Co2 equivalente/quilo de soja produzida.
Além disso, a substituição das estimativas genéricas (World Food Life Cycle Assessment Database/WFLDB) por dados refinados (Brazilian Land Use Change/BRLUC) revelou que a pegada de carbono associada à soja brasileira utilizada na produção do frango produzido e consumido em determinada região europeia diminuiu cerca de 35%.
O surpreendente achado serviu para evidenciar uma realidade menos impactante do que sugerem os bancos de dados tradicionais e, sobretudo, reforçar a importância de considerar a pegada de carbono incorporada ao longo da cadeia global e não apenas as emissões diretas associadas ao sistema produtivo local.
O Greenhouse Gas Protocol/GHG exige que as conversões de áreas de cerrado e pastagens sejam contabilizadas, contudo, a percepção é que a determinação venha sendo negligenciada nas avaliações tradicionais, apesar das suas indispensáveis contribuições em razão do sequestro de carbono. Portanto, integrá-las nas análises da pegada de carbono é fundamental para refletir com maior precisão o real impacto ambiental.
A soja estabelece um elo estratégico que conecta o campo (talhão) ao consumidor (talher). Medir, compreender e gerenciar sua pegada de carbono com rigor e responsabilidade é imperativo para garantir a competitividade do Brasil e sua colaboração efetiva para um sistema alimentar sustentável e de baixo impacto ambiental.
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Fonte: Revista feed&food
