O agro se torna grande bênção quando a fartura da terra se transforma em pão na mesa, quando a ciência serve à vida, quando a prosperidade inclui responsabilidade e quando cada elo da cadeia reconhece que produzir alimento é também amar ao próximo.
No dia 25 do mês passado, comemoramos o Dia do Trabalhador Rural, data em homenagem a todos os produtores, lavradores e trabalhadores que atuam no campo e, com técnica, coragem e fé, sustentam famílias e conhecem o peso de decidir antes do sol nascer, plantar sem controlar a chuva e investir sem controlar o mercado.
Falar desse agro em perspectiva espiritual não é romantizar o setor nem esconder seus desafios, e sim reconhecer que produzir alimento é uma das formas mais concretas de servir ao próximo, uma vez que na retaguarda de cada safra, rebanho, máquina, pesquisa, carga transportada e contrato firmado há gente trabalhando diante de Deus, administrando recursos, gerando renda, desenvolvimento e esperança. Em resumo, quando a produção se une à responsabilidade, quando o lucro caminha com justiça e quando a inovação respeita a terra confiada às mãos humanas, o agronegócio revela sua vocação mais nobre, ou seja, ser bênção.
A reflexão bíblica começa em Gênesis 2:15, quando Deus coloca o homem no jardim para lavrar e guardar. O trabalho agrícola nasce, portanto, como mandato de cultivo, enquanto o cuidado e o solo, a água, as florestas, as sementes, os alimentos e a tecnologia podem e devem ser usados para a vida e não explorados de modo irresponsável. Sustentabilidade, nesse sentido, não é apenas exigência técnica ou resposta a pressões externas, mas atitude espiritual de mordomia.
É importante ressaltar que esse agricultor que depende da terra para viver costuma ser o primeiro interessado em mantê-la fértil, limpa e produtiva para filhos e netos, ou seja, preservar não é negar a produção e sim reconhecer que a Deus pertence a terra e que todos prestaremos contas do que fizemos com ela.
Na parábola bíblica dos Talentos (Mateus 25:14-30), Jesus ensina que os bens confiados aos servos deveriam ser trabalhados e multiplicados e, quando aplicado ao agronegócio, esse princípio valoriza iniciativa, produtividade, gestão eficiente, pesquisa e inovação, desde que orientado pelo bem comum, ou melhor, multiplicar recursos não significa esgotá-los, mas fazê-los frutificar de forma honesta, sustentável e socialmente útil. Aliás, noutra passagem das Escrituras (Mateus 6:26-30), Jesus aponta para as aves e os lírios como sinais do cuidado de Deus por toda a criação, portanto, cuidar do ambiente, também é cuidar de pessoas, especialmente daquelas mais vulneráveis e que mais sofrem quando faltam água, alimento, moradia segura e saúde.
A história mostra a grandeza dessa missão. Em 1798, Thomas Malthus temeu que a população crescesse mais rapidamente que a produção de alimentos e abrisse o caminho para fome e miséria. A Revolução Verde desafiou essa previsão ao incorporar ciência, melhoramento genético, fertilizantes, defensivos e mecanização, elevando a produtividade agrícola mundial. Norman Borlaug, agrônomo e Nobel da Paz, sintetizou a urgência do tema ao lembrar que a paz não se sustenta com estômagos vazios. No Brasil, Alysson Paolinelli teve papel decisivo na transformação da agricultura tropical, ajudando o país a sair da condição de importador de alimentos para tornar-se potência agrícola. Mais recentemente, pesquisas como as de Mariângela Hungria, com fixação biológica de nitrogênio e os bioinsumos, mostram que produtividade e redução do uso de insumos químicos podem caminhar juntas.
O conceito moderno de agronegócio, ou agribusiness, desenvolvido por Ray Goldberg e John Davis em Harvard, ajuda a compreender que o agro vai muito além da porteira. Ele integra insumos, máquinas, crédito, pesquisa, produção, armazenagem, logística, processamento, comércio e consumo e essa cadeia explica seu peso no PIB, nas exportações, no emprego e na segurança alimentar. O agronegócio brasileiro alcançou R$ 3,2 trilhões em 2025, representa cerca de um quarto do PIB, mais da metade das exportações e aproximadamente 20% dos empregos, além de contribuir para alimentar mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.
Apesar dos números impressionantes que redundam famílias empregadas, comunidades desenvolvidas e alimento nas mesas, o setor segue afligido com a dependência dos poucos modais de transporte, insuficiência de armazenagem, limitações do seguro rural, incertezas do Plano Safra, longas distâncias entre produção e consumo, ativismo exacerbado, protecionismo internacional e conflitos geopolíticos que incrementam os custos, corroem a renda e atrapalham sobremaneira o planejamento.
A agenda climática tem permitido ao produtor rural brasileiro demonstrar que é possível produzir mais com sustentabilidade, à exemplo do Plano Agricultura de Baixo Carbono/ABC+, Integração Lavoura, Pecuária, Floresta/ILPF, plantio direto, bioinsumos, RenovaBio e créditos de carbono que reduzem emissões, aumentam a produtividade, recuperam pastagens degradadas, permitem ampliar a produção, melhoram o solo, sequestram CO2 atmosférico e protegem as florestas, além da nossa matriz energética renovável e dos polos de inovação como o AgTech Valley, considerado o principal ecossistema de inovação tecnológica brasileiro.
Visto à luz da fé cristã, o agronegócio é vocação, mordomia e serviço. Sua grandeza não está apenas no volume que produz, exporta ou movimenta financeiramente, mas na capacidade de alimentar pessoas, gerar trabalho, sustentar famílias, inovar com responsabilidade e cuidar da criação, já que o caminho desejável é produzir com excelência, lucrar com justiça, empregar com dignidade e preservar como quem honra a Deus.
O agro se torna grande bênção quando a fartura da terra se transforma em pão na mesa, quando a ciência serve à vida, quando a prosperidade inclui responsabilidade e quando cada elo da cadeia reconhece que produzir alimento é também amar ao próximo.
Jesus resumiu assim a grandeza dessa vocação que toca a vida humana em sua necessidade mais essencial: “tive fome, e me destes de comer” (Mateus 25:35).
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Fonte: Revista feed&food
