Os relatórios internacionais publicados em abril passado revelaram cenário favorável para 2025/26, já que a oferta global de grãos tende a se recompor e afastar o aperto observado em ciclos anteriores. Respectivamente, o GMR 575 do International Grains Council/IGC e o WASDE 670 do United States Department of Agriculture/USDA, projetaram produção de 2,5 e 3 bilhões de toneladas e estoques finais de aproximadamente 640 e 800 milhões de toneladas. Não obstante à diferença apurada e decorrente da abordagem aplicada (USDA inclui arroz beneficiado), o abastecimento global aponta melhora, muito embora a eliminação total de incertezas revela-se impossível, já que risco zero é utópico.
Em relação ao milho, soja e respectivo farelo, o USDA estima produção mundial de 1,3 bilhão de toneladas, 427 milhões e 290 milhões de toneladas, respectivamente. A despeito da esperada safra robusta, a formação de preços permanece sensível a poucos elos da cadeia e qualquer incremento não pode ser descartado por causa da influência dos tantos fundamentos contemporâneos a serem considerados.
No caso do Brasil, o 7º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26 da Companhia Nacional de Abastecimento/CONAB estima produção de 356 milhões de toneladas em 2025/26, alta de 1,2% sobre o ciclo anterior, principalmente por conta da soja que deve superar 179 milhões de toneladas e do milho beirando 140 milhões (28 milhões/1ª.safra + 109 milhões/2ª.safra + 2,5 milhões/3ª.safra). Já o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de março/26 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE, aponta 348 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas. Apesar da distinção de metodologias entre as Estatais, ambos levantamentos indicam oferta suficiente para atender a demanda doméstica e as exportações.
Vale lembrar, contudo, que a segunda safra, responsável por quase 80% do milho brasileiro, costuma ser mais sensível ao clima e à janela mais curta de plantio, ao crédito e à logística, além de depender também do andamento na colheita da soja e da adubação, cuja aplicação, tardia ou inadequada, compromete sobremaneira o vigor da planta e sua produtividade.
A propósito, os fertilizantes expõem a vulnerabilidade estrutural da agricultura brasileira, frente à importação de 85% das necessidades e os impactos resultantes da cotação do dólar, fretes marítimos, fluidez dos portos e decisões comerciais de poucos fornecedores globais. A preocupação, inclusive se intensifica por causa do atual ambiente internacional que segue pressionado pelas compras antecipadas no Hemisfério Norte, pelos riscos em rotas logísticas estratégicas e pela restrição e até a suspensão nas exportações do gás natural, amônia, ureia e enxofre através do Estreito de Hormuz e, possivelmente, em torno do Mar Negro.
As exportações do milho brasileiro podem somar 46,5 milhões de toneladas (conforme CONAB), enquanto o avanço contínuo no consumo das indústrias de alimentação animal (60 milhões de toneladas de milho, de acordo com Sindirações) e de etanol (25 milhões de toneladas de milho, conforme União Nacional do Etanol de Milho/UNEM) devem ocupar grande parte da demanda de mais de 94 milhões de toneladas do cereal durante o ano de 2026.
As projeções otimistas para safra brasileira e a perspectiva de estoques globais encorpados, rivalizam com o atual cenário dos fertilizantes, cuja escassez e carestia, podem reduzir a produtividade das lavouras, alavancar os preços dos grãos, e sobretudo, encarecer a alimentação de aves, suínos, bovinos, organismos aquáticos, etc.
A atual convulsão geopolítica global que tem deslocado boa parte do risco da lavoura para fora da porteira e que, inclusive, adiciona incertezas ao vindouro cenário agrícola 2026/2027 no Hemisfério Sul, requer a mobilização de medidas essenciais (previsibilidade cambial, crédito rural, logística de importação, diversificação de fornecedores, diplomacia dos fertilizantes, estabilidade macroeconômica) para manutenção da competitividade agroindustrial e contenção dos repasses ao consumidor brasileiro que já enfrenta endividamento crítico.
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Fonte: Revista feed&food
