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O passado molda, o presente acelera, e o futuro julga!

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A indústria de alimentação animal ocupa uma posição estratégica e, ao mesmo tempo, exposta, já que está posicionada entre os fornecedores de matérias-primas, energia, tecnologia e serviços e os produtores de aves, suínos, bovinos, leite, ovos, peixes, além de atender aos animais de companhia. Por conseguinte, acaba por absorver rapidamente choques climáticos, geopolíticos, cambiais, logísticos, regulatórios e tributários, embora disponha de exígua capacidade para controlá-los isoladamente.

A principal conclusão é que o setor continua amparado por fundamentos estruturais favoráveis (demanda mundial por alimentos, competitividade do agronegócio brasileiro e expansão possível das exportações), porém atravessa um ambiente de elevada incerteza. O desafio empresarial deixou de ser apenas produzir com eficiência e passou a incluir leitura antecipada de riscos, diversificação de suprimentos, gestão de caixa, rastreabilidade, defesa comercial e capacidade de responder rapidamente a mudanças de mercado.

Posicionada no meio de uma cadeia extensa, transforma milho, farelo de soja, coprodutos, farinhas, gorduras, minerais, vitaminas, aminoácidos e outros aditivos em desempenho zootécnico e proteína animal. Essa posição central cria uma dependência dupla, ou seja, à montante, o setor acompanha agricultura, fertilizantes, defensivos, sementes, energia, logística e indústria química, enquanto que à jusante, depende da rentabilidade e das decisões de avicultores, suinocultores, pecuaristas, produtores de leite, ovos, aquacultura e pet food. Essa interdependência explica por que um problema aparentemente distante pode chegar rapidamente ao custo da ração.

Uma interrupção em rota marítima altera frete e seguro; a redução da oferta de enxofre pressiona o ácido sulfúrico; o encarecimento desse ácido afeta fosfatos; e a restrição dos fosfatos alcança a suplementação animal e os fertilizantes. Da mesma forma, mudanças comerciais impostas a uma proteína animal reduzem ou redirecionam a demanda por alimentação animal. Além disso, os EVENTOS NATURAIS, os FATORES EXTERNOS e as CAUSAS (exclusivamente) DOMÉSTICAS constituem o conjunto de forças que devem moldar o futuro.

A possibilidade de um El Niño intenso amplia o risco de seca no Norte e no Nordeste, excesso de chuvas no Sul e calor ou irregularidade das precipitações no Centro-Oeste e no Sudeste. Os efeitos atingem produtividade agrícola, disponibilidade de milho e soja, qualidade das pastagens, transporte, colheita, armazenagem e desempenho dos animais. Calor excessivo reduz consumo e produtividade e chuvas em excesso interrompem operações, enquanto estiagens encarecem grãos, suplementação e energia. O risco climático deve ser tratado como uma variável de gestão, e não apenas como uma ocorrência agrícola, já que interfere no capital de giro, na política de estoques, na origem das compras, nas fórmulas nutricionais e no relacionamento comercial com clientes.

Por sua vez, a geopolítica tornou-se geoeconomia porque tarifas, cotas, investigações comerciais, sanções, exigências ambientais e padrões sanitários passaram a ser usados na disputa por mercados. Os conflitos no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, afetam petróleo, gás, enxofre, fertilizantes, fretes, seguros e rotas de navegação. Ao mesmo tempo, políticas como o regulamento europeu contra o desmatamento, o mecanismo de ajuste de carbono na fronteira e as cláusulas de salvaguarda elevam a exigência de rastreabilidade e conformidade e colocam em risco seu recém acordo com o Mercosul. Também merece atenção a busca chinesa por maior segurança alimentar e menor dependência externa através dos ganhos de produtividade, substituição de ingredientes e redução do uso de farelo de soja ou milho que podem alterar fluxos tradicionais de comércio. Para o Brasil, cujo agronegócio mantém forte relação com a China, qualquer mudança estrutural de demanda exige acompanhamento permanente. No relacionamento com a União Europeia, a rastreabilidade deixou de ser uma exigência periférica e passou a condicionar o acesso aos mercados. Evidentemente, a interlocução do setor privado e diplomacia com autoridades europeias precisa demonstrar, com dados verificáveis, a origem das matérias-primas, a segregação dos fluxos e a capacidade brasileira de controlar riscos ambientais e sanitários, à exemplo de instrumentos como a “Plataforma Agro Mais Sustentável/Agro+S”.

Adicionalmente, no ambiente interno, os principais obstáculos combinam juros reais elevados, déficit fiscal, endividamento rural, recuperações judiciais, restrição de crédito e desaceleração do consumo. Além disso, a valorização do real pode até aliviar custos de itens importados e a inflação, mas reduz a competitividade das exportações e afeta as receitas em Reais das cadeias exportadoras.

Importante salientar que o mercado de trabalho apresenta outro paradoxo, uma vez que o desemprego em baixa histórica e a melhoria da massa salarial sustentam a demanda doméstica, mas as demissões voluntárias, dificuldade de retenção e escassez de mão de obra afetam fábricas, propriedades rurais, transportadores e serviços, portanto, a gestão de pessoas, a automação e a qualificação profissional passam a integrar a agenda de competitividade. Enfim, somam-se deficiências de infraestrutura, dependência do transporte em modal rodoviário, frota envelhecida, capacidade estática insuficiente para armazenamento dos sucessivos recordes de safras e o aumento do custo do frete.

Na esfera institucional, mudanças na sistemática de registro de produtos importados, a vindoura vigência da reforma tributária, a redução de incentivos fiscais, a logística reversa de embalagens, a aplicação de direitos antidumping e a ciclotimia imposta às alíquotas do imposto de importação acrescentam complexidade e incerteza às decisões empresariais.

Ademais, a transição no regime tributário e a preservação dos tratamentos aplicáveis às rações, concentrados, suplementos, premixes, aditivos, aminoácidos e grãos merecem atenção especial. A prorrogação do Convênio ICMS 100 (benefícios fiscais nas transações de mercadorias dentro de cada Estado e entre eles) até a implantação plena do novo sistema (IBS) é relevante para evitar elevação abrupta de custos e perda de competitividade ao longo da cadeia.

A leitura conjunta das perspectivas e das principais pressões sobre a cadeia produtiva de proteína animal sugere que a avicultura de corte, postura e suinocultura reúnem condições mais favoráveis no curto prazo, enquanto a bovinocultura de corte e leiteira demandam cautela adicional. Porém, independentemente do segmento analisado, qualquer aumento da produção deve acompanhar sinais reais de consumo e exportação, porque produzir acima da capacidade de absorção do mercado transfere eficiência física para perda econômica.

Diante de um cenário menos previsível, ao invés de tentar prever com precisão cada choque, os empreendedores devem se preparar para as diferentes combinações de risco e focar em frentes voltadas à inteligência de mercado (acompanhar clima, câmbio, juros, estoques globais, rotas marítimas, medidas comerciais e decisões dos principais compradores); suprimentos (diversificar origens, qualificar fornecedores alternativos, revisar estoques de segurança e mapear insumos originários); finanças (preservar liquidez, administrar exposição cambial, revisar capital de giro e testar margens sob cenários adversos); regulação e rastreabilidade (antecipar exigências ambientais, sanitárias e tributárias e fortalecer documentação, segregação e comprovação de origem); produção e mercado (expansão, formulações e compras com a demanda efetiva, evitando sobreoferta e erosão de rentabilidade).

Ainda nesse ano de 2026, o cenário continua apontando para desaceleração do crescimento e viés de baixa para as projeções. Embora, emprego e renda ainda apoiam a atividade, os juros estratosféricos, endividamento nas alturas, crédito restrito e a menor disposição para consumir limitam a expansão, já que parte da renda tende a financiar a reorganização do orçamento familiar, em vez de novas compras. Para 2027, o encerramento do ciclo eleitoral, a possível retirada de estímulos, o ajuste fiscal e a continuidade de uma política monetária restritiva podem reduzir investimentos, sendo que a intensidade desse ajuste dependerá do resultado das eleições, muito embora, conter a dívida pública será medida compulsória para preservação da confiança, atração de capital e redução do custo do financiamento.

As eleições legislativas de meio de mandato, dos Estados Unidos e as disputas comerciais também podem remodelar o ambiente externo. A cadeia global produtora de proteína animal conviverá com fundamentos que sustentam a demanda por alimentos, porém sob conjuntura capaz de interromper fluxos, elevar custos ou fechar mercados. Vale a pena acompanhar ininterruptamente a implementação das regras europeias de controle do desmatamento e rastreabilidade e a estratégia chinesa de autossuficiência alimentar, com possíveis efeitos sobre a demanda por nosso farelo de soja, milho e proteínas brasileiras.

O mundo continuará demandando alimentos, e o Brasil reúne condições privilegiadas para ampliar sua participação no abastecimento global. Entretanto, clima, geopolítica, protecionismo, juros, infraestrutura e disponibilidade de insumos pressionam simultaneamente as margens. Diante dessa complexidade, antecipar riscos e planejar diferentes cenários tornou-se mais prudente do que confiar em uma única previsão.

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Fonte: Revista feed&food

 

FICHA DE AQUISIÇÃO

COMPÊNDIO BRASILEIRO DE ALIMENTAÇÃO ANIMAL